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10 de Dezembro de 2019

“black blocs”, torcidas organizadas e a banalidade do mal

Rafael de Lazari
Publicado por Rafael de Lazari
há 6 anos

Duas introduções possíveis para o seguinte texto:

1) Em seu livro “Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil”, Hannah Arendt relata o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, por crimes nazistas, após sua - cinematográfica - captura em Buenos Aires por forças especiais israelenses. Dentre tantas observações que entraram para a história (muitas das quais polêmicas), Arendt dispensa especial atenção ao perfil do homem em julgamento: do monstruoso e sanguinário carrasco nazista que todos esperavam, depara-se com um mero funcionário público cumpridor de ordens, aparentemente incapaz de entender teleologicamente que seus comandos e carimbos muito contribuíram para o crescimento do número de mortos judeus durante o regime nacional socialista. Dessa e de outras constatações, a filósofa de origem germânica chega à conclusão acerca da “banalidade do mal”, isto é, a maneira como se o encara com a mais absoluta naturalidade nada obstante seu terrível poder destruidor.

2) Em menos de duas semanas, o Brasil assistiu estarrecido a duas manifestações de intolerância social: no primeiro caso, “torcedores” invadiram o centro de treinamento de futebol de um clube da cidade de São Paulo, com instrumentos cortantes e contundentes, a fim de “dar um recado” aos jogadores e membros da comissão técnica. Conforme depois se apurou, “quebrar as pernas” de alguns jogadores (não estou falando no sentido figurativo, por incrível que pareça!) seria apenas um dos objetivos do ato de violência. Já num segundo caso, durante protestos populares ocorridos na cidade do Rio de Janeiro contra o aumento das tarifas de ônibus - de R$ 2,75 para R$ 3,00 -, os mascarados do movimento “black bloc” soltaram artefato explosivo próximo a cinegrafista de televisão, atingindo-o de maneira fatal (conforme mostram as imagens, o indivíduo estava de costas, o que impossibilitou por completo sua defesa).

E segue o texto.

É óbvio que o principal enfoque de Arendt concentra-se na burocratização do mal pelo aparato estatal, e não pelos cidadãos. Seu posicionamento reflete um sentido histórico - corretíssimo, diga-se de passagem - de contumazes violações dos direitos humanos e fundamentais pelo Estado, daí a genuína característica destes: antes mesmo de manifestações do transcendental, representam verdadeiros mecanismos de defesa contra os arbítrios estatais, algo que toda relação guarda com a teoria dos quatro status, do publicista alemão Georg Jellinek (sobre a qual nos comprometemos, desde já, a trabalhar em um texto futuro, haja vista o terreno fértil para tanto). O insignificante Eichmann nada mais representa, pois, que substituível parafuso na engrenagem burocrático-ideológica do regime nazista, nada obstante os incrédulos judeus o tenham visto inicialmente como um açougueiro impiedoso fiel a Hitler. O que torna tudo tão banal é que, não fosse ele o burocrata, outro o seria. Simples assim.

Causa espanto, contudo, a contemporânea banalização do mal também nas relações entre cidadãos. Dentre vários enfoques a serem trabalhados nos dois ataques supramencionados, convém chamar a atenção para o fato de que, em ambos, se está diante de um conflitos entre cidadãos, de modo que opressor e oprimido são “sujeitos pessoais”, com um rosto e número de registro civil, e não “impessoais” como na figura do agente estatal. Justamente em tempos de incidência de direitos fundamentais e de direitos humanos também às relações entre particulares (algo relativamente novo no Brasil pós-ditatorial, mas um tanto arraigado na cultura tedesca pela “drittwirkung”, desde a década de 1950), assiste-se a um definhar completo de qualquer construção doutrinária acerca do pacto social recheado de garantias constitucionais, como defendido pela teoria.

Na “banalidade do mal” dos tempos atuais, profissionais de esporte precisam se trancar em uma sala e fazer barricadas com armários, enquanto a turba enfurecida oprime quem quer que esteja pelo caminho, ainda que sejam meros profissionais não atletas que inocentemente contribuem para o diaadia do clube. Muitos dos que ofendem, há pouco enalteciam aqueles que trouxeram campeonatos tão sonhados para sua galeria de argumentos futebolísticos. Mas não há problema algum: os jogadores assustados logo superarão o trauma, e os “torcedores” sempre estarão prontos para a próxima briga.

Na “banalidade do mal” dos tempos atuais, assiste-se impassível, por todos os ângulos e câmeras possíveis, ao sangue de um cinegrafista a jorrar na televisão, enquanto os interlocutores clamam pela “liberdade de imprensa”, trazendo números e estatísticas de quantos foram os profissionais vítimas dos protestos desde sua eclosão, na metade de 2013. A imprensa livre é, sim, um estandarte a ser defendido nestes tempos de fragilização da democracia. Se esquece, contudo, que antes disso há seres humanos machucando outros seres humanos por causas dúbias. Muitos dos “black blocs” voltaram para casa após os protestos, colocaram a roupa suja - algumas das quais covardemente encobriam os seus rostos - na máquina de lavar, tomaram um banho quente, jantaram e foram dormir em uma cama macia prontos para o inevitável dia seguinte. Enquanto isso, um cidadão teve seu crânio afundado por um rojão e deixa o país enlutado.

Nada mais burocrático e banal que o cotidiano.

* Este comentário foi publicado originalmente no meu site: www.rafaeldelazari.com.br, em 10/02/2014. Apenas seu conteúdo foi atualizado, já que, à época, o Sr. Santiago Andrade, cinegrafista da Rede Bandeirantes de Televisão, ainda lutava pela vida.

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